Antes da cimeira da ONU. Líderes abordam a crise climática com um El Niño recorde

Antes da cimeira da ONU. Líderes abordam a crise climática com um El Niño recorde

Líderes políticos de todo o mundo estão a chegar a Nova Iorque para a Assembleia Geral da ONU e alguns deles colocaram a crise climática na ordem do dia ao discursarem, na segunda-feira, na abertura da Semana do Clima da cidade.

Cristina Sambado - RTP / Adicionar como fonte informativa
Angela Weiss - AFP

A Semana do Clima deste ano — realizada em paralelo com a Assembleia Geral da ONU — decorre após meses de calor extremo em grandes partes do mundo, incluindo a Europa e os EUA, além de incêndios florestais em África, inundações repentinas na Ásia e um fenómeno El Niño de proporções recorde.

A Climate Week (Semana do Clima) realiza-se anualmente em Nova Iorque desde 2009, e os organizadores informaram que a edição deste ano será a maior até à data, reunindo mais de 100 mil participantes das áreas da política, negócios e ativismo. No entanto, também reconheceram um aumento do chamado “silenciamento climático”, um fenómeno em que os líderes empresariais e políticos evitam falar sobre a crise climática no meio do foco incessante nas guerras, na inflação e nas turbulências económicas que assolam o mundo.

Houve uma desconexão este verão — período em que sentimos os efeitos das alterações climáticas como em nenhum outro ano, com desastres de grandes proporções — em relação à disponibilidade dos líderes para falar sobre este assunto”, afirmou Helen Clarkson, CEO do Climate Group, organização responsável pela Climate Week.

Para Helen Clarkson, “sem dúvida que as pessoas se preocupam com o custo de vida, mas as sondagens mostram que também se preocupam com o clima; não são alheias ao que está a acontecer. Uma palavra que ouvimos muito hoje, nos discursos, é que precisamos de coragem para estabelecer esta ligação com as pessoas e unir os pontos”.

As alterações climáticas têm sido uma das agendas centrais do secretário-geral da ONU, António Guterres — cujo mandato termina no final do ano e que convocou, na quarta-feira, uma cimeira que reúne líderes de todo o mundo, tendo em vista a COP31 sobre o clima, a realizar em novembro na Turquia. 

No entanto, pouco se falou, no dia de abertura da Semana do Clima, sobre os recentes esforços do governo norte-americano para travar as ações climáticas — como a decisão da administração Trump de pagar quase quatro mil milhões de dólares em dinheiro dos contribuintes para travar projetos de energia eólica offshore e as medidas para flexibilizar as normas de emissões para veículos e centrais termoelétricas a carvão.

Em vez de discutir a paralisia política e os retrocessos nas ações climáticas, os oradores concentraram-se nas razões económicas e de segurança que tornam impossível ignorar a necessidade desta transição.

Selwin Hart, secretário-geral adjunto para a ação climática da ONU, afirmou que a crise que envolve o Irão veio reforçar ainda mais este argumento.

"Esta crise, por mais terrível que seja, está a servir de alerta para que os países, as empresas e as pessoas quebrem realmente a dependência dos combustíveis fósseis e acelerem a transição o mais rapidamente possível", disse Selwin Hart ao jornal britânico GuardianExemplos australianos e islandesesO primeiro-ministro da Austrália, Anthony Albanese, proferiu o discurso de abertura na segunda-feira, enquanto a primeira-ministra da Islândia, Kristrún Frostadóttir, fez as considerações finais. Ambos falaram sobre os efeitos da crise climática nos seus países, as medidas que estão a adotar para a transição energética (abandonar os combustíveis fósseis) e o apoio para que outras nações façam o mesmo.

"O clima global sempre foi traiçoeiro. Mas a ciência alertou-nos, de forma inequívoca, que, à medida que o mundo aquece, estes eventos se tornarão mais frequentes e intensos. E estas previsões científicas concretizaram-se", afirmou Albanese, destacando os esforços do país para apoiar outras nações do Pacífico no combate à crise climática.

Já Kristrún Frostadóttir afirmou que a transição do país nórdico para a energia geotérmica foi impulsionada pela crise mundial do petróleo. No início da década de 1970, a maioria das habitações islandesas dependia da queima de petróleo importado para aquecimento.

"Os orçamentos familiares foram afetados e uma pequena nação insular, distante de todos os mercados e fornecedores, aprendeu da maneira mais difícil o que significa depender de algo que não se pode controlar", realçou. "Por isso, fizemos uma escolha. Em vez de apenas suportar a volatilidade, virámo-nos para o que estava mesmo debaixo dos nossos pés."

Em poucos anos, Reykjavík construiu um sistema de aquecimento urbano geotérmico de grande escala. Outras cidades islandesas seguiram o exemplo, muitas concretizando a mudança numa década.

Segundo Kristrún Frostadóttir, "isto exigiu um apoio político inabalável e mecanismos de financiamento que ajudaram as famílias comuns a fazer a transição sem custos iniciais proibitivos. E, talvez o mais raro no mundo de hoje, um consenso suprapartidário que perdurou por vários governos".

Atualmente, quase todas as casas na Islândia são aquecidas com energia renovável, sendo mais de 90 por cento proveniente de fontes geotérmicas.

Os líderes também enfatizaram a necessidade de realizar a transição para energias renováveis o quanto antes. Para a primeira-ministra da Islândia, “a única questão real que resta para os líderes — para todos nós nesta sala — é o que é preciso para continuar a avançar mais rapidamente do que as perturbações que ainda estão por vir. A nossa resposta, vinda de uma pequena ilha no Atlântico Norte, é esta: comece antes de ser obrigado a fazê-lo. Construa a resiliência antes que a crise a ponha à prova.”Riscos da dependência dos combustíveis fósseis O ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, Ed Miliband, falou ainda sobre os riscos da contínua dependência dos combustíveis fósseis, considerando a invasão da Ucrânia pela Rússia e a guerra dos EUA no Irão, descrevendo a instabilidade inerente a esta situação como a "montanha russa dos combustíveis fósseis".

"O clima e a natureza devem ser integrados nos sistemas de segurança nacional, nas avaliações de ameaças e no planeamento de contingência", afirmou Miliband. "Os países precisam de partilhar informação, pois um choque iniciado numa nação pode propagar-se rapidamente pelas cadeias de abastecimento, mercados financeiros e padrões migratórios, atingindo outros países."

Também as Forças Armadas necessitam de ser capazes de operar no ambiente em que se encontram, e estes ambientes estão a mudar, defendeu o tenente-general Richard Nugee, oficial reformado do Exército Britânico.

"Um exemplo muito bom disto é que as águas do Golfo estão a ficar tão quentes — e a previsão é que aqueçam ainda mais — ao ponto de a água não conseguir arrefecer os motores dos nossos navios", disse. Nugee afirmou ainda que as Forças Armadas deveriam prestar atenção às tecnologias de adaptação climática, não só pelas suas menores emissões, mas também pelo potencial de oferecer vantagens estratégicas.

"Não acredito que exista energia renovável capaz de mover um tanque de 70 toneladas. Não é esse o caso", afirmou o militar britânico. "Mas os nossos veículos blindados mais pequenos... porque não torná-los híbridos? Isto é melhor para a nossa furtividade e melhor para as tripulações, pois gera menos ruído e menos vibração."

Entretanto, o setor privado está a aproveitar a transição para as energias renováveis para proteger os seus resultados financeiros. Karen Pflug, diretora de sustentabilidade do Ingka Group — o maior operador de lojas da Ikea —, afirmou que a eficiência energética nas suas unidades permitiu à empresa poupar milhões de dólares anualmente.

Pflug referiu que a empresa acaba de anunciar um novo parque solar na Carolina do Sul, que contará com 178 mil painéis solares. "Portanto, independentemente do que esteja a acontecer do ponto de vista político, acredito que isto faz muito sentido para os negócios", disse. "O imperativo económico está presente".
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